Ao colocar na mesa de debates um conjunto de temas ligados ao desenvolvimento sustentável, o 1º Encontro Cidades e Mudanças Climáticas mostrou os muitos desafios que estão nesse caminho. No encontro promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), no dia 6 de maio, no Rio de Janeiro, especialistas de várias áreas do conhecimento, gestores públicos, empresários, representantes de ONGs e da sociedade civil apontaram a necessidade de criação de uma agenda para as cidades enfrentarem daqui para a frente os efeitos dos inevitáveis impactos ambientais.
Parte do projeto Sustentável 2010: Ciclo de Encontros sobre Sustentabilidade e Gestão Responsável, este 1º Encontro teve como tema Cidades e Mudanças Climáticas e apontou alguns caminhos para um futuro mais seguro e com qualidade de vida. Entre eles: a necessidade de integração das políticas governamentais nos níveis federal, estadual e municipal; a participação efetiva das empresas; a produção de conhecimento científico; o desenvolvimento de novas tecnologias; e o estabelecimento de um plano de adaptação para este novo cenário.
Maioria urbana
Dos 9 bilhões de habitantes previstos para o planeta em 2050, 6,4 bilhões viverão em áreas urbanas, contra os 3 bilhões atuais. Para Bjorn Stigson, presidente do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que fez a palestra de abertura do evento, será preciso, num espaço de apenas 40 anos, construir infraestrutura urbana jamais feita na história. “Isso vai provocar mudanças nas cidades, impactando o meio ambiente com o melhor padrão de vida das pessoas”, observou Stigson, defendendo a inovação tecnológica e a “revolução verde” como pilares para a sustentabilidade do planeta.
O presidente do WBCSD avalia que viver no limite do planeta exigirá adaptações no estilo de vida e na infraestrutura das novas construções a fim de garantir o uso sustentável dos recursos. Segundo ele, os países líderes já enfrentam uma “corrida verde” em busca de uma economia de baixo carbono, que será caracterizada pelo desenvolvimento de novas tecnologias. “Os países líderes deste processo já perceberam que o mundo será diferente”, comentou Stigson, destacando as oportunidades que as empresas terão para construir a infraestrutura e desenvolver soluções tecnológicas para esta transformação.
Vulnerabilidade das megacidades
O aumento da temperatura, a elevação do nível do mar e as constantes tempestades já provocam sérios impactos nas áreas urbanas. O estudo “Megacidades, Vulnerabilidade e Mudanças Climáticas", elaborado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade de Campinas (Unicamp), apontou os riscos para as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Juntas estas duas áreas somam quase 32 milhões de habitantes e 56 municípios.
Segundo Andrea Young, pesquisadora do Nepo/Unicamp, o estudo aponta que a ocupação desordenada e a supressão de vegetação agravam os problemas nestas duas megacidades. “O estudo mostra o avanço da área urbana como um fenômeno do prolongamento da periferia, o que chamamos de efeito borda”, explicou. Com a ocupação desordenada, as cidades estão sujeitas a enfrentar problemas no sistema de drenagem e também no abastecimento de água, por exemplo, conforme aponta o estudo.
No caso do Rio de Janeiro, um dos problemas identificados é a perda de vegetação, que dificulta o escoamento da água, provocando o “escorregamentos” de encostas. De acordo com o estudo, o quadro também se repete na região metropolitana de São Paulo. Para solucionar o problema, a pesquisadora defende a criação de um órgão que coordene as medidas e decisões para as regiões metropolitanas.
Zona costeira
Os impactos ambientais também colocam na linha de risco as cidades portuárias e costeiras. Segundo Cláudio Neves, pesquisador da Coppe/UFRJ, a zona costeira está sujeita à variação do nível do mar em escala global, regional e local. Um estudo com 136 cidades portuárias do mundo, destaca ele, coloca 20 delas como as de maior risco, o que pode afetar o potencial de negócios que elas geram. "A percepção é tão importante quanto o risco para os investidores e administradores públicos", observa.
Para Cláudio Neves, o Brasil não tem hoje uma forma adequada de ocupar a zona costeira. "Vive-se um momento de asfixiamento do porto pela malha urbana, o que provoca o seu deslocamento para outro local. Isso deixa um vazio urbano para trás", comenta, citando a mudança do porto do Rio de Janeiro para Itaguai. O pesquisador aponta que este efeito traz uma pressão ainda maior na estrutura urbana, que já é deficitária. Como solução, ele defende mais eficiência no planejamento costeiro do país.
Plano de adaptação
Para a presidente do Cebds, Marina Grossi, a política de adaptação para a economia de baixo carbono e sustentabilidade precisa fazer parte do planejamento urbano. Ela aposta na integração de políticas públicas e na aliança entre governos, setor privado e sociedade civil como solução para o planejamento das cidades. Ela também citou a importância das oportunidades de diálogo aberto, como a que surgiu durante o encontro com o convite que o Cebds recebeu do vice-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Muniz, para integrar o Fórum Carioca de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável.
O fórum, criado por meio do Decreto nº 31.415, de 30/11/2009, busca conscientizar e mobilizar a sociedade e o governo da cidade para discutirem os problemas decorrentes das mudanças do clima e promover o desenvolvimento sustentável. O objetivo final é contribuir para o crescimento econômico, a preservação ambiental e o desenvolvimento social. "A Política de Mudanças Climáticas faz parte do planejamento da cidade", destacou o vice-prefeito, comentando que a lei está para ser votada na Câmara de Vereadores.
"O Cebds está de portas abertas para discutirmos em conjunto maneiras de transformar os desafios da cidade em grandes oportunidades", comentou Marina Grossi, citando a necessidade da construção da infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.
No evento, Marina Grossi divulgou os resultados da Pesquisa Cebds - Market Analysis sobre Desafios Urbanos e as Mudanças Climáticas, feita no período de 26 de março a 1º de abril. A pesquisa abordou temas como os problemas do Rio de Janeiro para os próximos cinco anos, os impactos das metas urbanas para os jogos olímpicos, as oportunidades que as olimpíadas vão gerar e as responsabilidades e competências em relação às mudanças climáticas.
Adaptação e mobilidade
Na caminhada para uma economia sustentável e de baixo carbono, a secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Branca Americano, também defendeu a existência de um plano de adaptação. Segundo ela, é preciso ser mais agressivo ao vender a possibilidade de ser referência para a sociedade de baixo carbono. “O papel do governo é criar os incentivos necessários para os setores se desenvolverem, além de prestar atenção aos setores que serão afetados por essa nova economia”, destacou Branca Americano, citando a criação do Fundo do Clima.
Quem também aposta nas políticas de adaptação é Sérgio Besserman Vianna, assessor especial da Prefeitura do Rio de Janeiro. Para ele, a trajetória para um modelo de desenvolvimento sustentável passa também pelo aumento da produção científica e formação de recursos humanos, além da formação de bases estatísticas para poder medir e avaliar as mudanças.
“É preciso envolver todos os atores na produção do conhecimento e adaptação ao novo modelo de desenvolvimento”, aponta Vianna, reforçando a necessidade de fazer análises de risco por conta do processo de mudanças climáticas. “Neste processo, é preciso saber em que se vai investir. Para isso, é preciso ter estatísticas e informações para fazer as análises”, observa.
Gestão dos projetos
Pesquisadora da Coppe/UFRJ na área de mobilidade e adaptação, Suzana Kahn considera três pontos cruciais para o desenvolvimento de uma economia sustentável. O primeiro deles é cuidar da governança do processo, fundamental para estabelecer e implantar as políticas públicas. O segundo envolve a cooperação entre governos - federal, estadual e municipal - e empresas e a sociedade como um todo.
“Isso é fundamental para o objetivo de minimizar os impactos”, destaca Suzana Kahn. O terceiro aspecto considerado pela pesquisadora diz respeito à definição de liderança no processo. "É preciso ter uma visão maior, pois sem uma coordenação fica difícil o desenvolvimento neste novo cenário", diz. O aumento da mobilidade é uma outra preocupação de Suzana Kahn, que com o seu crescente aumento vai afetar o consumo de recursos e os impactos no meio ambiente, trazendo mais emissão de gases do efeito estufa.
Grandes eventos
A questão de infraestrutura necessária para a realização da Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016 também teve espaço no o 1º Encontro Cidades e Mudanças Climáticas. Na 1ª Jornada de Construção Sustentável – Sustentabilidade: As oportunidades da Copa e das Olimpíadas, os palestrantes debateram pontos como tecnologias para construções sustentáveis, financiamento, investimentos, o papel dos governos, soluções na área de eficiência energética e ambiental e iniciativas que serão adotadas para fazer com que estes eventos sejam sustentáveis.
Em torno do tema sustentabilidade, os dois grupos criados debateram este rol de questões. Um dos grupos do painel contou com a participação de Carlos Eduardo G.de Almeida, presidente da Câmara Temática de Construção Sustentável do CEBDS; Laura Valente de Macedo, diretora Regional para a América Latina e Caribe do ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade); e Marcelo Takaoka, do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).
Do outro grupo participaram Maria Salette de Carvalho Weber, coordenadora geral do PBQP-H da Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades; Márcia Valle Real, superintendente de Clima e Mercado de Carbono da Secretaria de Estato do Meio Ambiente; Solange Nogueira, gerente da Divisão de Eficiência Energética em Edificações da Eletrobras/Procel; Adailton Ferreira Trindade, gerente nacional da Caixa Econômica Federal; e Altamirando Moraes, subsecretário municipal de Meio Ambiente. |